Descubra os fatores que levaram ao aumento de 23% nos financiamentos de imóveis e veja como o mercado está buscando alternativas além da poupança.

Se havia alguma expectativa de que os juros elevados esfriassem o mercado imobiliário brasileiro, os números de 2026 provaram o contrário. O volume de concessões de crédito para a compra e construção de imóveis encerrou o primeiro semestre com um desempenho surpreendente, movimentando R$ 180,9 bilhões.

Esse montante representa um salto expressivo de 23% em comparação aos R$ 147,1 bilhões registrados no mesmo período de 2025, segundo dados recentes da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança). No total, mais de 680 mil imóveis foram financiados de janeiro a junho.

O grande destaque desse cenário é que o crescimento ocorreu na contramão das previsões pessimistas, já que a taxa básica de juros (Selic) permanece em patamares elevados (14,25% ao ano), encarecendo o crédito em geral. O desempenho foi tão positivo que a Abecip já planeja revisar para cima a sua estimativa de crescimento para o ano, inicialmente projetada em 16%.

O que impulsionou os financiamentos habitacionais?

O motor desse crescimento bilionário está diretamente ligado a duas fontes tradicionais de recursos: a poupança e o FGTS.

O peso da poupança (SBPE) e da classe média

Os financiamentos com recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), muito utilizados pela classe média, atingiram R$ 93,7 bilhões, marcando um avanço de 29% em relação ao ano anterior. Esse fôlego extra é, em grande parte, reflexo das medidas do Banco Central no ano passado, que flexibilizaram as regras de compulsório e liberaram mais dinheiro para os bancos emprestarem.

Dentro desse segmento, o crédito para construção civil foi a grande estrela, saltando de R$ 12,8 bilhões para R$ 26,5 bilhões (mais que o dobro). Já o crédito para aquisição de imóveis subiu 12%, sendo que mais de 70% das operações envolveram a compra de imóveis usados.

A força do FGTS e do Minha Casa, Minha Vida

As operações utilizando o Fundo de Garantia também mantiveram um ritmo acelerado. Foram R$ 77,6 bilhões contratados (alta de 22%), impulsionados fortemente pelo programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), com destaque para a faixa 3.

A transição do mercado: a poupança não dá conta sozinha

Apesar do excelente volume de empréstimos via SBPE, há um desafio estrutural no mercado: a caderneta de poupança está perdendo recursos.

Apenas no primeiro semestre de 2026, a poupança registrou uma retirada líquida de R$ 31 bilhões. Para se ter uma ideia, hoje a carteira de crédito imobiliário do SBPE corresponde a 121% dos recursos direcionáveis da caderneta. O que isso significa? Que os bancos estão precisando buscar dinheiro em outras fontes para dar conta da alta demanda por financiamentos.

Segundo a Abecip, esse cenário acelera uma transição inevitável no mercado imobiliário brasileiro. Para sustentar o crédito nos próximos anos, as instituições financeiras dependerão cada vez menos da poupança e mais de instrumentos do mercado de capitais, como:

Home Equity: o crédito com garantia de imóvel ganha espaço

Outra grande tendência confirmada no primeiro semestre de 2026 é o crescimento acelerado do Home Equity — o Crédito com Garantia de Imóvel (CGI). Essa modalidade registrou uma alta impressionante de 30,9%, somando R$ 6,67 bilhões em concessões.

Como funciona? O Home Equity é uma linha de empréstimo (pessoal ou empresarial) de longo prazo onde o proprietário utiliza um imóvel já quitado como garantia da operação.

Como o banco tem um bem de alto valor respaldando a dívida, o risco de calote despenca. O resultado disso são condições e taxas de juros muito mais vantajosas do que as encontradas no crédito pessoal comum ou no cheque especial. Neste ano, a média contratada por tomador foi de R$ 267 mil, com prazos de pagamento estendidos de até 13 anos.

O futuro do setor imobiliário

Apesar do otimismo, o custo do dinheiro ainda é um gargalo. Com a expectativa da Selic encerrar o ano na casa dos 14%, o custo de captação dos bancos continua alto, o que limita quedas bruscas nas taxas dos financiamentos na ponta final para o consumidor.

Para garantir que o setor continue crescendo de forma sustentável, o mercado aposta na modernização. Projetos focados na digitalização de cartórios, maior segurança jurídica nos contratos de garantia e uma forte integração com o mercado de capitais são os próximos passos para manter o sonho da casa própria acessível aos brasileiros.

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